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Críticas

Crítica | Fullmetal Alchemist (live-action)

Caso você seja engenhoso demais e goste de novas experiências tome lápis e papel e anote: 35L de água, 20Kg de carbono, 4L de amônio, 1,5Kg de cal, 800g de fósforo, 250g de sais, 100g de nitrogênio, 75 de flúor, 5g de ferro, 3g de silício e uma série de outros elementos. Esses são os componentes básicos para a constituição orgânica de um corpo humano e o plot que serve como gatilho para o início da trama de Fullmetal Alchemist.

A produção em live-action feita em parceria pela Square Enix e Warner Bros Japan foi o último grande lançamento do cinema japonês em 2017 e finalmente ganhou o mundo através da Netflix nesta semana. Dividindo as expectativas dos fãs, desta que é considerada a melhor série de mangá/animê da primeira década do século XXI, o longa-metragem japonês cumpre seu papel de referenciar com certa beleza a trama original de Hiromu Arakawa.

Na trama, os irmãos Edward e Alphonse Elric – filhos de um alquimista – resolvem quebrar um tabu da humanidade ao realizarem uma transmutação humana. A tal obscura alquimia requer as quantidades exatas de elementos citadas mais acima, mas mesmo assim não é garantia de que um ser humano completo será formado dali, afinal de contas (de acordo com muitas vertentes religiosas) um ser humano não é só matéria e precisa de uma alma e um espírito.

Como tudo na vida requer um preço, o filme nos relembra que até mesmo na alquimia isso é um axioma marcado por uma máxima: a Troca Equivalente. E justamente no desconhecimento/ignorância desse fato que ambos falham em ressuscitar a mãe, Trisha Elric, e tem que pagar à Verdade com a perda de um braço e uma perna, no caso de irmão mais velho Edward, e o corpo inteiro, no caso de Alphonse. Essa é a premissa e o chamado para a aventura para os dois, que saem de casa e se tornam alquimistas federais no intuito de descobrir um meio de recuperar seus corpos.

Fumihiko Sori (Rorouni Kenshin, Shingeki no Kyojin, Chihayafuru) consegue detalhar diversos elementos do mangá de Hiromu Arakawa ao nos conduzir por uma trama repleta de mistérios e com boas doses de drama. O discurso da amizade é notório ao longo da película, seja entre Ed e Al ou entre Roy Mustang e Maes Hughes. O diretor também faz um excelente trabalho ao selecionar o elenco para o filme. Divergindo totalmente do que as críticas  – ou do que Seiji Muzushima, diretor do primeiro animê da franquia – haviam dito, os atores selecionados para o filme foram bem escolhidos. Destaques para Sato Ruyta no papel do Ten-Cel. Maes Hughes, que ficou a própria personificação da personagem original tanto no figurino quanto na atuação.

Outros personagens que ficaram bem representados foram: Luxúria (Matsuyuki Yasuko), Envy (Hongo Kanata), Gluttony (Ushiyama Shinji). O destaque nos figurinos e na atuação dos  antagonistas foram o ponto alto no quesito elenco. Isso porque dos protagonistas não se pode dizer o mesmo. Yamada Ryosuke (Edward Elric) interpreta um Ed mais velho com 20 anos de idade, bem diferente do começo da trama onde a personagem tem 15 anos. Em alguns momentos sua atuação destoa do perfil do Ed original e não convence (principalmente durante os momentos de ação). Sua contrapartida feminina, Honda Tsubasa (Winry Rockbell) também deixa a desejar em alguns aspectos. Os principais entre eles são: sua pouca expressividade – Winky Rockbell é alguém firme e energética – e seu figurino (no filme a personagem não é loira). Talvez isso seja evidente justamente por ela ter sua história não contada durante o longa-metragem e ela acabar servindo de suporte. O ponto positivo é que Honda Tsubasa é uma jovem japonesa muito bonita e que com certeza veremos mais vezes por aí.

O segundo protagonista, Alphonse, salva esse elemento. Sendo feito todo em 3DCG, a armadura móvel que prende a alma do irmão Elric é fidelíssima ao conceito do mangá/animê e sua mobilidade também é bem firme sem ações grosseiras ou mal editadas. Esse é outro detalhe de grande relevância em Fullmetal Alchemist: os efeitos especiais. Todas as cenas de alquimia que acontecem durante o filme são bem animadas e não aparentam desleixo. Pelo contrário chegam o mais próximo da realidade vivida no animê, por exemplo. Sua única imperfeição – que se repete em todo o filme – é a Edição de Som.

Em Fullmetal Alchemist alguns referenciais sonoros são enigmaticamente ignorados pela edição do filme. Dentre eles dois são relevantes e bastante prejudiciais para a aceitação da narrativa: o som metalizado dos automails de Edward e do corpo de Alphonse, que fazem com que a verossimilhança destes elementos no universo do filme seja falha e artificial demais; o outro erro recorrente é na ausência dos sons de transmutação. Tal ente sonoro – produzido em um trabalho bem aplicado de sound design – era utilizado sempre que uma personagem realizava alquimia nas duas versões da animação. Seu esquecimento no filme empobrece os momentos marcantes das cenas em computação gráfica e assim diminui o apelo da memória junto ao telespectador.

É necessário falar também sobre as escolhas feitas para a narrativa.  Fumihiko Sori decidiu por trabalhar diferentemente do que havia feito em suas última produções e não optou por um filme em sequência (embora a cena pós-crédito nos dê uma ideia contrária). Logo, adaptou somente um arco da trama (o arco da Pedra Filosofal/5° Laboratório) e inseriu alguns elementos do arco final para encerrar a história. Com isso muitos núcleos e personagens importantes foram descartadas. É o caso do refugiado ishivaliano Scar, as tropas do Norte, o major Alex Louis Armstrong, os demais homúnculos incluindo King Bradley, o reino de Xing e Van Hohenhein, a primeira Pedra Filosofal e pai dos irmãos Elric.

Com isso a trama foi curta e fragmentada com alterações que não passaram despercebidas como a morte precoce do Dr. Tim Marcoh e a ausência da cena de enterro de Maes Hughes. Uma das melhores cenas é a aparição da quimera Nina-Alexander, que mostram o teor sombrio da obra.

Por fim, um comentário rápido sobre a dublagem nacional. O Grupo Macias reuniu 40% do elenco original da dublagem feita pela Álamo e nos presenteia participações como as de: Marcelo Campos (Edward Elric), Rodrigo Andreatto (Alphonse Elric), Andressa Andreatto (Winry Rockbell) e Letícia Quinto (Risa Hawkeye). A ausência mais sentida é a de Hermes Baroli (Roy Mustang) cabendo a Diego Lima a importância de citar uma das frases mais marcantes da franquia: “Ô do Aço!”. A direção de dublagem foi de Úrsula Bezerra.

No geral o filme não é a decepção que se esperava e salva o cenário das adaptações de mangás/animês que sofreram com os muitos erros em 2017. Fullmetal Alchemist se tornou um fenômeno de bilheteria no Japão e uma das produções que ainda alimentam a esperança de vermos bons live-actions inspirados nas tramas acompanhadas por nós durante a fase da infância.

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