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Animês e Mangás

Artigo Otaku | Nanatsu no Taizai, o Ciclo Arturiano no formato mangá

Eis que o Artigo Otaku está de volta a sua normalidade. Após duas edições falando de música e abrindo espaço até mesmo para o K-Pop, retomemos nosso diálogo sobre mangás e animês como de costume.

Nesta semana o site oficial da franquia Nanatsu no Taizai divulgou o primeiro teaser-trailer do filme Nanatsu no Taizai: Tenkuu no Torawarebito (The Seven Deadly Sins: Prisioners of the Sky), uma trama original produzida por Nakaba Suzuki – o autor do mangá – previsto para estrear no cinema japonês em agosto de 2018. O filme já se tornou a película mais aguardada pelos fãs de animês na telona.

Ainda não se sabe nada muita coisa sobre a história, mas o filme vem a público logo após ao fim da exibição da 2ª temporada da animação iniciada em janeiro de 2018, Nanatsu no Taizai: Imashime no Fukkatsu (The Seven Deadly Sins: Revival of the Commandments), e provavelmente contará com O Leão do Orgulho, Escanor, o último dos Sete Pecados Capitais a ser apresentado.

 

 

O lançamento desse filme chama nossas atenções para a história de Nanatsu no Taizai. A franquia finalmente alcançou status suficiente dentro no media-mix japonês para realizar voos mais altos e assim, agora, vai parar na telona. Mas tudo isso se deve ao sucesso do animê lançado em 2014 que nos apresentou ao Dragão da Ira, Meliodas, um cavaleiro errante dono de um bar localizado às costas de uma porca gigante e verde numa terra mágica chamada Britânia.

Inspirado nos contos do Ciclo Arturiano onde lendas e obras ficcionais contam sobre atos heroicos e de cavalaria de regiões como Bretanha, Irlanda e Cornualha. Nakaba Suzuki buscou referências nas personagens arturianas para criar alguns dos momentos mais emocionantes que o shounen mangá atual apresenta. Desde 2012, sua obra é publicada pela Kodansha na revista Weekly Shounen Magazine e atualmente conta com 255 capítulos lançados semanalmente e com 28 volumes já encadernados.

O casal protagonista criado por Nakaba Suzuki são inspirados em um casal oriundo do Ciclo Arturiano. O filho do Rei Demônio, Meliodas, recebe seu nome da personagem homônina conhecido como Rei de Lionnes e pai de Tristan, um dos Cavaleiros da Távola Redonda. Já Elizabeth, a encarnação de uma deusa, recebe seu nome da consorte do Rei de Lionnes.

Outras personagens também tem suas inspirações diretas do Ciclo Arturiano como é o caso da Raposa da Ganância, Ban, que recebe seu nome do Rei Benwick, pai de Sir Lancelot. O par romântico de Ban, Elaine, também segue a mesma lógica do casal anterior sendo ela – nas lendas – a rainha consorte de Benwick.

Também temos casos como Merlin, o mago mais famoso das lendas, que na obra japonesa é uma mulher, além de Arthur Pendragon, Rei de Camelot, que como nas lendas europeias é o grande senhor dos Cavaleiros da Távola Redonda e discípulo do mago. Há muitas outras referências presentes na obra de Nakaba Suzuki, mas aqui acho que deu para ficar claro.

Nanatsu no Taizai segue a fórmula do shounen bem a risca. O bem e o mal são polarizados e estão em conflito, mas isso não significa que os dois lados não dialoguem entre si (ou que personagens dos dois lados circulem pelos dois cenários); há uma equipe de heróis e heroínas com personalidades fortes e distintas agradando diversos tipos de leitores; há também um ranking de poderes para estabelecer hierarquias de força entre as personagens e auxiliar a construção e assimilação de novos desafios ao passar das fases da trama.

O mangá original (e suas adaptações reforçam isso) também apresenta elementos como diálogos relevantes e cheios de enigmas, o desejo pela manutenção da amizade e do amor (com uma boa dose de romance para um título shounen) e fanservice, principalmente os fetiches envolvendo as personagens femininas.

Só isso não faz de um mangá algo completamente sustentável, afinal de contas muitos outros títulos também seguem essa fórmula e mesmo assim não decolam. Numa compreensão macroscópica acredita-se que o que faz de Nanatsu no Taizai uma obra completa é justamente sua dedicação a história e ao romance. É muito comum que shounen mangás deem preferência a ambientar bons confrontos e acabam prolongando em muitos capítulos o embate entre duas personagens onde ambas dão tudo de si em variações absurdas de poderes e golpes.

Ao longo de todos os 255 capítulos lançados até aqui temos batalhas acontecendo com momentos importantes e impactantes, mas não se percebe em nenhuma ocasião que um confronto se torna muito mais destaque que o motivo para que ele viesse acontecer e as consequências após seu término. Nakaba Suzuki se mostra bem cuidadoso para que isso se mantenha. A dedicação do autor para com sua trama fez com que em seis anos Nanatsu no Taizai alcançasse o respeito entre os fãs do gênero e também se tornasse midiaticamente rentável (não à toa ganhará um filme longa-metragem!).

Uma outra particularidade são as referências ao cristianismo-catolicismo justamente no nome da narrativa e de seus componentes: os Sete Pecados Capitais. Como protagonistas eles rivalizam os Dez Mandamentos, um grupo de notáveis demônios?! Pois é! Nakaba Suzuki brinca com essas referências na hora de construir a base de sua trama. Misturando isso aos druidas celtas das lendas arturianas e suas magias temos um seleto prato de conflitos e combates que muito provavelmente vão desaguar no maior símbolo dos duelos no lado mágico do Ciclo Arturiano: o Santo Graal (que é a base principal das referências cristãs dentro do universo mítico do Rei Artur).

 

(Os Dez Mandamentos são atualmente o maior desafio dos heróis do mangá)

 

O mangá Nanatsu no Taizai – para nós brasileiros – acaba nos fazendo lembrar de Saint Seiya de Masami Kurumada. Discorda? Bom, a explicação para isso é o fato de os dois shounen mangá abordarem o universo mitológico ocidental com um olhar único. A presença do Ciclo Arturiano (assim como a Mitologia Grega) é bem mais comum a todos nós em comparação com qualquer referência oriental (a não ser que você já seja um profundo conhecedor). Os laços de amizade e a superação de desafios com batalhas sempre justificadas são outros motivos de semelhança.

Tal semelhança, contudo, fica por aqui. Nanatsu no Taizai vai além de Saint Seiya ao se aprofundar nas relações emocionais das personagens. A formação de casais como Meliodas e Elizabeth, Ban e Elaine, King e Diane mostram uma trama preocupada em atingir todos os cenários do público e todos os tipos de públicos (até mesmo o feminino, visto que a publicação é feita numa revista masculina).

E é esse sentimento sublime chamado amor que se torna o principal plot da narrativa. A eminência de um romance trágico onde os dois amantes são amaldiçoados a viverem uma vida cheia de percalços pela eternidade, impossíveis de compartilhar o que um sente pelo outro sem temer a morte e o esquecimento. Esse é o destino de Meliodas e Elizabeth traçado há 3000 anos por uma guerra pela supremacia onde o despertar do amor deles motivou o rompimento das tradições e o filho da escuridão e a herdeira da luz ansiaram por estarem juntos e foram proibidos pelos seus senhores.

Magia, batalhas, guerras, traições, amor e tragédia. Como no melhor do Ciclo Arturiano, o mangá de Nakaba Suzuki é a releitura perfeita dos clássicos literários europeus e mesmo assim é uma obra única e com seu próprio charme: um mangá completo.

Até a próxima e… Sayonara!

 

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