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Críticas

Crítica | Viva – A Vida é uma Festa

Pixar acerta de novo em filme emocionante sobre memória, família e perdão

Não tem curta-metragem abrindo alas para Viva – A Vida é uma Festa (Coco, 2017), novo filme da Pixar. Em vez disso, vemos a clássica vinheta da Disney acompanhada pela música, dessa vez com acordes mexicanos. A imersão começa ali, já que a seguir o filme estabelece um vínculo emocional tão pessoal com quem assiste que fica difícil não abrir logo o jogo: esse é o trabalho mais lindo e profundo que o estúdio já realizou até agora.

A abertura traz a narração em off do protagonista Miguel Rivera, um garotinho de 12 anos. Através de recursos 2D nas bandeirinhas decorativas, ele explica a tradição da sua família ao longo de cinco gerações, ao mesmo tempo em que justifica sua predileção pela música – e como a música representa um trauma para seus familiares. Essa resistência dos parentes diante das aspirações dos mais jovens é bem recorrente na filmografia da Pixar (e da Disney) porque a força do sonho é uma matéria básica para esses estúdios. É só lembrar de Nemo e Marlin em Procurando Nemo (2003), Merida e a mãe em Valente (2012) ou da intrépida Moana contrariando o pai em Moana (2016).

Mas longe de repetir ou requentar fórmulas, ‘Viva’ traz a tona o melhor da Pixar: o potencial imaginativo capaz de criar universos inteiros. O diretor Lee Unkrich, membro da Pixar desde 1994 e responsável por nossos choros em Toy Story 3 (2010), nos leva agora para o México. E o arsenal de cenários em cores vibrantes, texturas tão vívidas da arquitetura local e personagens multidimensionais deixa claro o trabalho dedicado de pesquisa sobre uma cultura frequentemente estereotipada em longas americanos.

E é surpreendente como o filme consegue desenvolver tantos personagens sem classificar superficialmente nenhum deles. A importância da família é destacada do começo ao fim, mas é fascinante que eles tenham escolhido um núcleo matriarcal para a casa dos Rivera. E o que dizer da abordagem da “vida após a morte”, que ao mesmo tempo em que respeita a folclore do “Dia de Los Muertos” jamais pende para a perspectiva maniqueísta/religiosa?

Dito isso, é justamente nessa transição entre o mundo real e a “Terra dos Mortos” que a criatividade aflora. Usando planos gerais para explorar a exuberância do lugar com seu colorido fluorescente e construções sinuosas, o filme nunca se demora em explicações sobre a lógica dali, mas sutilmente expõe similaridades entre o mundo dos mortos e o nosso: a burocracia e as diferenças sociais também existem nesse plano. Mas é o desenho dos personagens que diverte, já que mesmo se tratando de esqueletos, os formatos variados, perucas e figurinos constroem a expressividade com precisão absoluta.

E assim, a saga do garoto, que ele pensava ser tão individual, aos poucos vai se expandindo para algo muito maior que ele. A tradição da memória e do poder transformador do perdão surgem em ‘Viva’ sem a casca barata do sentimentalismo, mas com verdade e música. Depois, o abraço apertado entre gerações da mesma família não deixa ninguém indiferente, nem assusta. É só o amor. <3

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